Jurema tem propriedades psicoativas e é comum no Nordeste brasileiro

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15/07/2019 Por
Jurema tem propriedades psicoativas e é comum no Nordeste brasileiro

A jurema é um arbusto muito difundido no litoral brasileiro, embora sua madeira seja pouco utilizável

A jurema, planta pertencente à família das leguminosas, bastante comum na região Nordeste, apresenta interessantes propriedades psicoativas. Sua família possui algumas espécies comumente cultivadas para a alimentação.

Além disso, a jurema exerce uma importante função ecológica. Afinal, ela abriga diversas espécies de microrganismos nitrificantes, isto é, capazes de fixar o nitrogênio no solo.

Jurema

O que é jurema?

Jurema é um termo que serve para designar distintas espécies de leguminosas integrantes dos gêneros Pithecellobium, Acácia e Mimosa. Cita-se, neste último gênero, a Mimosa tenuiflora, a Mimosa verrucosa benth e a Mimosa hostilis benth.

Por sua vez, no gênero Acácia, é possível identificar a Acácia Jurema ou Acacia piauhyensis benth. Com efeito, diversas espécies pertencentes ao gênero Pithecellobium são, também, designadas pela mesma nomenclatura.

As classificações populares distinguem a jurema preta e a jurema branca. Para o célebre pesquisador e estudioso Sangirardi Jr., a distinção correta de cada árvore jurema é:

  • Jurema preta: Mimosa nigra ou Mimosa hostilis;
  • Jurema branca: Pithecellobium diversifolium;
  • Jurema de oeiras: Mimosa verucosa.

De acordo com o cientista, entre as espécies denominadas de jurema, encontram-se:

A família das leguminosas abriga, além da jurema, cerca de quatro espécies. Estas apresentam compostos psicoativos em suas conformações bioquímicas, entre as quais:

  • Corticeira ou Mulungu: o nome científico deste famoso sedativo é Erythrina crista-galli;
  • Mimosa pudica: conta com propriedades laxantes, sedativas e antirreumáticas;
  • Piptadenia peregrina: a partir da qual é feito o rapé, utilizado pelos índios amazônicos em rituais religiosos, devido às suas propriedades psicoativas.

Sem embargo, certas variedades de Acácias australianas do tipo Acacia maidenii possuem, também, propriedades que se assemelham às da jurema.

Composição fitoquímica

Nas raízes frescas e casas da jurema (Mimosa hostilis) foi identificado, em 1949, a presença do alcaloide nigerina. Esse elemento foi posteriormente identificado como alcaloide indólico (DMT, ou seja, dimetiltriptamina), uma substância altamente psicodisléptica ou alucinógena.

Com os vegetais que possuem DMT – derivados da triptamina e o núcleo indol –, como é o caso da jurema, é possível fazer uma perigosa combinação com os derivados da harmina. Esse fato foi identificado na Ayahuasca sul-americana. A combinação é realizada tanto com a Chacrona (Psychotria viridis) quanto com a Mariri (Banisteria caapi).

Jurema

A harmina foi identificada, também, na Passiflora (Maracujá) e no Peganum harmala (Syrian rue), plantas tradicionalmente utilizadas de forma independente.

Combinações em ritos indígenas

Alguns estudiosos chegam a afirmar que algumas variedades de maracujá foram sistematicamente usadas em combinações com a jurema. De fato, segundo os pesquisadores, combinações altamente psicoativas foram recentemente feitas com a jurema em celebrações rituais dos povos Xucuru, habitantes do estado de Pernambuco.

Não obstante, a utilização da jurema na região Nordeste tem gerado registros e referências de empregos e misturas diversas. Sabe-se, portanto, de preparações envolvendo a extração alcoólica das raízes e cascas da jurema, com água (por maceração ou decocção da folha de jurema) com ou sem fermentação.

A literatura científica registra, inclusive, a combinação da jurema com a Brunfelsia uniflora (Manacá). Para os estudiosos, essa é a combinação mais perigosa de todas, uma vez que tudo indica que ela tenha sido usada na Manifestação Sebastianista, resultando em psicose coletiva.

O elemento ativo da Brunfelsia uniflora é de natureza analgésica, anestésica e psicoativa, além de potencialmente simpaticolítica, configurando-se em um forte anticolinérgico ou atropínico.

Quando combinada com o Syrian rue, a jurema pode ter um efeito parecido ao de sua combinação com o maracujá. Afinal de contas, ambas as plantas apresentam substâncias muito semelhantes.

As combinações com maracujás silvestres ou maracujás do mato podem, até mesmo, ser o “segredo perdido” (crença presente em certas culturas indígenas que vaticinam a chegada do homem a um estado de consciência que o liberte das agruras terrenas).

Tal crença não é, porém, totalmente injustificada, à medida que a família Passifloraceae (da qual o maracujá é o membro mais ilustre) possui cerca de seiscentas espécies disseminadas por todas as partes do mundo e seus dezesseis gêneros ainda não foram totalmente estudados.

Vinho de jurema

O vinho de jurema, tão comum nas umbandas e nos catimbós, possui receitas secretas para a sua preparação. Algumas delas contam com a presença de alho, alecrim, sangue de aves, mel, cachaça e vinho branco.

Na medicina indígena, as formas de consumo da jurema envolvem o seu uso simultâneo com:

  • Nicotina tabacum (fumo): realizada em praticamente todas as tribos do Nordeste;
  • Cannabis sativa (maconha): realizada pelos Fulni-ôs;
  • Poncho de maracujá e cachaça: realizada por certas tribos do Nordeste.

O vinho da jurema, preparado, conforme mencionado, a partir de distintas variedades da planta jurema, tem sido costumeiramente consumido pelos remanescentes indígenas e caboclos brasileiros.

Seus efeitos foram detalhadamente descritos no romance Iracema, de José de Alencar. A despeito de ser amplamente conhecido no interior de nosso país, o vinho da jurema é consumido nas grandes cidades apenas durante os rituais de candomblé e em ocasiões especiais, como na passagem de ano e outras datas festivas.

Jurema

Efeitos da jurema

Para compreender os efeitos da jurema, não basta avaliar sua composição molecular e compará-la com as chamadas drogas alucinógenas. Antes, o pesquisador ou interessado leigo deve se situar no contexto das expectativas e formas de uso dessa substância.

Embora seja óbvio que as drogas psicotrópicas comprometam o sistema nervoso humano, esse fato não pode ser associado a elementos como:

  • Os símbolos religiosos;
  • A diversidade cultural;
  • A peculiaridade de cada povo indígena.

Embora existam similaridades entre os relatos envolvendo a utilização dessas substâncias e as descrições de êxtases religiosos, psicoses e estados oníricos, as pessoas não perdem a consciência de seu uso ritualístico. Isso, por si só, reduz significativamente seus efeitos e usos.

Aliás, a atuação de entidades civis e grupos religiosos tutelados pelo Estado Brasileiro conseguiram preservar importantes elementos que nos ajudam a conhecer, pelo menos, um pouco mais da rica história que os europeus tanto se esforçaram em apagar da memória coletiva.

Ademais, os índios nordestinos, apesar dos processos de integração forçada à sociedade eurocêntrica, conservam, em certas localidades, religiões organizadas que insistem em sobreviver.

A persistência da utilização da jurema em religiões populares e rituais indígenas do Nordeste brasileiro, apesar de duramente combatida pela colonização católica, indica sua relevância farmacêutica.

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